| Céu Incandescente - A Viagem de Hermes |
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Quase cai do motoplano, com o rugido de meu companheiro, achei que ele estava tendo um ataque cardíaco, sua voz gutural, urrou algo quase musical por cima do ombro esquerdo em direção a Hugo, novamente seus olhos pareceram vazios, como no Aleph, apontando para o imenso planalto norte, e ele partiu... Tive a impressão que o vento deslocado me arrancaria da moto, jogando meu corpo para longe, e tenho certeza que a terra tremeu, alguns pássaros multi coloridos voaram na direção contrária daquele mostro marrom, que com os pelos das costas complemente eriçados, acredito eu, para sugar a energia do sol vermelho, ele atingiu cem quilômetros horários em menos de 12 segundos, e estabilizou em torno de 120 Km/H eu o acompanhava assustado com a altíssima velocidade, olhando todos os músculos de meu amigo retesados, em uma demonstração natural da minha vulnerabilidade frente aquele gigante. Era muito bom Ter ele como amigo ! Depois de refeito do susto emparelhei com ele e tentei gritar algumas palavras, mas ele estava complemente desligado de mim, preso tão somente ao caminho, então me posicionei atrás a alguns metros e o acompanhei. Percorremos o planalto em aproximadamente uma hora, e o terreno começou a baixar em um declive confortável, a grama com aspecto de seca, mudava gradualmente para uma vegetação mais alta, e as estranhas arvores se tornavam mais freqüentes, percebi que o caminho de Saulo era quase retilíneo, entre as arvores, mais tarde ele me explicaria que sua acuidade visual em um planalto daquele, com o sol vermelho no horizonte baixo e não diretamente a sua frente, era de, aproximadamente, 20 quilômetros, alem do que, apesar de os Oglis se desligarem do coletivo antes de partirem em cruzeiro, eles armazenavam em suas memórias locais algo muito parecido com um plano de cruzeiro, com cada arvore e obstáculo do caminho. Percebi que Saulo diminuía a velocidade e acompanhei a mudança de marcha, próximo ao final do declive ele parou complemente, e sentou-se naquela posição peculiar dos ursos terrestres, examinando os arredores, parei ao seu lado e desmontei da moto. - Cara, como você faz isto ? - Faço o que ?". Somente uma leve aceleração no ritmo respiratório, mostrava que ele não estivera a horas naquela posição confortável, mas sim correndo pelos campos marrons mais rápido que um carro de passeio da terra. - Você esta correndo a mais de uma hora, mais rápido que qualquer ser do meu planeta poderia correr 30 segundos! - Não sei ! Não conheço seu planeta, aqui todos os nós fazemos isto para atravessar distancias maiores" - Você parecia estar dormindo em vez de correndo ! - É preciso desligar alguns sentidos para conseguir o melhor resultado na caminhada ! - CAMINHADA ????? Você deve estar brincando ! Poderia Ter ido mais rápido? - Em uma emergência poderia aumentar a velocidade em aproximadamente a metade do que estávamos desenvolvendo, mas por no máximo uns 20 minutos do teu tempo terrestre, e estaria exausto no final da corrida, Talvez poderia estender mais uns 10 minutos ao tempo, mas então meu coração provavelmente explodiria, e como em estado de cruzeiro não sentimos dor e desligamos complemente o controle sensorial do corpo, focando tão somente a planta dos pés e o rosto, cairia morto sem perceber ! - 10 MINUTOS A QUASE 200 Km/H ? E quanto tempo agüentaria nesta velocidade que estamos então ? - Meu cruzeiro mais demorado deve Ter durado aproximadamente 3 horas, quando atravessei o deserto Oeste. - E aposto que quase morreu no fim da corrida ? - O Cruzeiro me cansa muito pouco. 10 minutos foi o suficiente para me alimentar de algo solido, tomar um pouco de água e prosseguir. - Falando em alimento, reparei que suas costas estavam espontas, os pelos eriçados. Você se alimenta enquanto corre ? - Claro que sim, senão teria que queimar minhas reservas, e não existe a menor necessidade disto. - Você é foda, Ursão. - Foda ? - Esqueça.. Foi uma figura de linguagem, um elogio. - Ah, obrigado! - Aqui é o tal cinturão de Hugo ? Só consigo ver uma mata fechada, Que diabo de passeio idiota é este ? Me trouxe prá passear na floresta ? - Não amiguinho, o cinto, (e não cinturão) de Hugo esta muito adiante, sobre aquelas montanhas que pode ver a Leste. No final deste morro, por traz destas arvores, está o que chamamos de vale da morte, parei para recompor meus sentidos de maneira a podermos entrar conversando, e em respeito, este é um de nossos lugares sagrados e não convinha entrar por ele em velocidade. - Porra, cara, você começou a "grande" viagem pelo cemitério do grupo ? Você é bem tétrico ! - Conheço a noção humana da palavra cemitério, é um lugar onde vocês enterram o corpo sem vida de seus entes, cobertos por monumentos de pedra. Não, este conceito não tem nada haver com o que vocês chamam de cemitério, vocês humanos são muito frágeis fisicamente... - Muito obrigado... - ... e tem a benção de morrer de maneira muito confortável... - Morrer de maneira confortável, você é o que ? um louco ? - ... por nossa vez, nossos corpos são extremamente resistentes e protegidos das agressões do meio externo, sejam elas biológicas ou físicas... - Viva o super-urso !!!! - ... a parte mais sensível de nosso organismo é justamente a mais complexa e mais delicada, nosso cérebro, ou melhor a região deste responsável pelo coletivo. Com o tempo perdemos contato com o restante do grupo, no principio em surtos e mais tarde complemente. Então a parte física começa a se ressentir e a parte menos nobre do cérebro, que é responsável pela sustentação dos órgãos e em poucos anos, morremos. Em uma fase de nosso desenvolvimento social, a milhares de anos, nós praticávamos a eutanásia em nossos velhos, mas algo inesperado aconteceu durante o desenvolvimento físico dos Oglis, não sei se você já tem conhecimento deste fato, mas enquanto senhor de suas faculdades, um dispositivo psicológico, impede qualquer Ogli de transmitir sensações de dor a outro Ogli, nenhuma sensação de desconforto pode ser transmitida ao coletivo, nossos antepassados nunca podiam transmitir este tipo de sensação, em nenhuma situação, hoje, há um momento em que não podemos evitar a sensação de dor em uma determinada situação : A da morte ! O grito de morte de um Ogli é transmitido a todos e chega a deixar alguns inconscientes. Como esta impresso no livro das tradições : "Quando um Ogli morre, todos os outros morrem um pouco com ele " - UAL... E a dor é grande ? - Você não acreditaria... Mas voltemos a explicação do porque do Vale da morte, nós descobrimos, que uma determinada região do planeta era inacessível ao coletivo, não conseguimos entender bem porque, mas qualquer Ogli dentro deste lugar que entraremos agora torna-se complemente surdo ao coletivo, você perceberá mudanças em mim, e eu só poderei suportar por um curto espaço de tempo, ficaremos só o suficiente e eu peço a você que não discuta quando eu disser para sairmos. Aqui estão os Oglis que perderam a capacidade física de pertencer ao coletivo, e eles estão morrendo rapidamente, É um lugar de ossadas e indivíduos na fase mais primitiva da evolução de nossa espécie, você não tem que se preocupar, pois eles temem profundamente os que estão ligados, não se aproximaram de você enquanto estiver comigo, então não se afaste. Acho que é hora de penetrarmos. - Você me assustou, mas agora eu não volto mais atras, vamos em frente Saulo! - Me siga por esta trilha, amiguinho, e prepare-se.
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